quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A ARTE É O CRIME *




* Texto de autoria de Bernardo Carvalho publicada no caderno ilustrada da Folha de São Paulo em 31/07/2007






"PICKPOCKET" (1959) , de Robert Bresson, é um filme livremente inspirado em "Crime e Castigo". No romance de Dostoiévski, Raskólnikov invoca a figura de Napoleão, o assassino de milhares de pessoas absolvido pela história, como exemplo para uma teoria do homem extraordinário, capaz de criar a sua própria lei e arcar com as responsabilidades dos seus atos. Assim pretende justificar o assassinato de uma velha usurária, que ele vai cometer com requintes de violência. No filme de Bresson, agora lançado em DVD, um rapaz desempregado se torna batedor de carteiras, "uma aventura para a qual não fora talhado", e se justifica com uma teoria análoga à de Raskólnikov: o crime o destaca da massa e o dignifica. Não se submeter à lei criada pelos outros é a afirmação do seu gênio.
O batedor de carteiras entra em ação pela primeira vez entre os espectadores das corridas de cavalos. Bresson filma a cena da forma mais antinaturalista -de resto, como todo o filme.
Os atores-figurantes assistem à corrida de frente para a câmera. O batedor de carteiras está estrategicamente disposto atrás de sua vítima, movido por um impulso que, como já assinalaram outros críticos, tem muito de erótico. A cena ilustra a teoria do personagem: todos estão distraídos, como se fossem autômatos, suas expressões são banais à força de tanta semelhança, estão hipnotizados por um interesse comum. Só ele, à beira de cometer um crime, tem a atenção desviada. Seu olhar é o único vivo e misterioso na sua individualidade.
No final do filme, o protagonista volta à cena do crime inicial, às corridas de cavalos, onde começou sua carreira.
Mas, desta vez, apesar de toda a experiência acumulada, será pego em flagrante. Quando a mulher que ele ama o visita na prisão, o batedor de carteiras diz que foi preso porque se distraiu. Para ele, é uma idéia insuportável. Significa que já não se distingue da massa distraída, que foi vítima da distração, como todos os outros.
Bresson era um cineasta marcado pela religião, pelas questões do pecado e da culpa. Adaptou dois outros textos de Dostoiévski: "Uma Mulher Dócil" (1969) e "Quatro Noites de um Sonhador" (1972, baseado em "Noites Brancas"). Na leitura idiossincrática que fazia da obra de Dostoiévski, Vladimir Nabokov não media as palavras quando era para pichar o compatriota. Em relação a "Crime e Castigo", o que mais o exasperava era a retórica sentimentalista levada ao cúmulo, segundo ele, na cena redentora em que o assassino e a prostituta lêem o Novo Testamento.
Em "Pickpocket" também há expiação da culpa e redenção pelo amor. Mas nada pode ser taxado de sentimentalista.
Todo o cinema de Bresson está fundado numa lição e num paradoxo teatral: o falso, quando homogêneo, resulta verdadeiro. Para que o real se manifeste na tela, é preciso que nem a cena nem os atores tentem disfarçar o que são.
Para Bresson, o real brota do artifício da representação assumido como tal e não das convenções do naturalismo. Por isso, preferia não trabalhar com atores, que são fingidores profissionais. Preferia a inexperiência dos iniciantes, os quais chamava de modelos.
O mundo em "Pickpocket" é representado como um cenário onde os homens evoluem numa coreografia milimetricamente ensaiada, que chega ao ápice quando, numa estação de trens, vários ladrões agem em conjunto. Os gestos são rigorosamente estudados e encenados, à maneira da própria "arte" do batedor de carteiras. Tudo é filmado em detalhe, em primeiro plano: mãos, carteiras, lapelas e bolsas, como numa dança de objetos parciais e autônomos. Um mundo de movimentos lentos e de figurantes vagando pelas ruas, como zumbis (que, às vezes, lembram os personagens dos quadros de Balthus) ao som amplificado dos seus passos nas calçadas, como se vivessem em estúdio.
Assim como Dostoiévski, Bresson inaugura um mundo que não existia antes dele. E esse mundo é tão mais real por ser efeito de uma concepção autoral inimitável e sem precedentes. Antes de começar propriamente a ação do filme, o batedor de carteiras escreve em seu diário: "Sei que de
costume os que fizeram tais coisas se calam e os que as contam não as cometeram. E, no entanto, eu as cometi". É a deixa para o espectador entender que nunca viu o que está para ver. E que daí em diante tudo dependerá desse paradoxo tão caro a Bresson, segundo o qual a verdade nasce da invenção. Num desdobramento e numa inversão muito peculiar da teoria de Raskólnikov, a própria arte rouba o lugar do crime.

terça-feira, 24 de julho de 2007

DICA DE LEITURA


ESTAÇÃO CARANDIRU
Drauzio Varella
Cia das Letras

segunda-feira, 23 de julho de 2007

DUO CIA DE TEATRO

A DUO Cia. de Teatro surgiu em 2004 a partir das inquietações de um grupo de artistas preocupados em desenvolver um trabalho que refletisse sobre os rumos que o homem vêm traçando ao longo de sua existência no planeta.

A partir do estudo da filosofia, dos símbolos e arquétipos percebidos em várias tradições religiosas e do estudo da psicologia (principalmente a junguiana) pretendemos atingir uma compreensão da alma humana e dos mecanismos que regem o comportamento do homem na sociedade atual.

São os aspectos sombrios do ser humano que se manifestam nas relações sociais, políticas e pessoais, a matéria prima de nosso trabalho.

A escolha deste material poderia resultar em um teatro “feito para chocar”, mas os acontecimentos que ocorrem no dia-a-dia de qualquer grande cidade do mundo, nos parecem muito mais chocantes do que o efeito que qualquer obra de arte feita com esta pretensão possa provocar.
Portanto, não nos interessa tão somente retratar estes aspectos através de nosso trabalho. Para nós é necessário transcendê-los para que possamos atingir a sensibilidade do homem moderno.

Encontramos na literatura de Fiodor Dostoievski os elementos que nos parecem essenciais ao teatro que gostaríamos de fazer. Em Dostoievski o homem (o personagem) nos é mostrado através de uma complexa teia de relações, onde o indivíduo é fruto das condições políticas e sociais, mas em nenhum momento é posto como vítima social. Por mais miserável (material e espiritualmente) que sejam, os personagens dostoievskianos encontram-se sempre diante de situações onde sua ações, conscientes ou não, são desencadeadoras de uma serie de conseqüências.

12 SEGUNDOS DE ESCURIDÃO é a primeira parte de uma trilogia a ser produzida pela companhia, inspirada no romance Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski.
Neste texto nos debruçamos sobre o homem diante das conseqüências dos seus atos (o assassinato e o roubo cometidos pelo personagem Raskolhnikov) e suas implicações psíquicas e simbólicas.

Na segunda parte da trilogia (ainda sem título) partiremos do velório do personagem Marmieladov para falar do ser humano diante da morte, da solidão e do abandono.

A terceira parte da trilogia (também ainda sem titulo) abordará o cinismo e o abuso de poder perpetrado por aqueles que são possuidores de riqueza e status social a partir do personagem Svidrigailov e de suas relações com Advotia Românovna.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Theatre Du Soleil Richard II

Um dos mais importantes grupos de teatro do mundo. Em 1989 tive a opotunidade de fazer um curso com dois atores da Companhia: Georges Bigot e Maurice Durozier

domingo, 3 de junho de 2007

SINOPSE

Num fluxo ininterrupto de pensamento, um homem rememora o seu passado, minutos antes do início de uma nova fase em sua vida.

Enquanto aguarda ser chamado, a qualquer momento, pelo auto-falante do presídio onde cumpriu dez anos de reclusão por assassinato, Raskolnikov revê sua estória: os motivos que o levaram ao crime, suas relações familiares, seu relacionamento com Sônia, uma jovem prostituta que o acompanhou por toda a vida.

A estrutura desta narrativa contempla 3 tempos distintos:

- Os 15 minutos (aproximadamente) que lhe restam no presídio;

- O dia em que confessou seu crime à jovem prostituta;

- Toda a estória de sua vida (suas inquietações, seus sentimentos de culpa, sua forma de ver o mundo).

Rompemos assim, com o conceito clássico de espaço/tempo a partir do momento em que estendemos o tempo fictício de 15 minutos para 1 hora e quinze minutos de espetáculo, como se propuséssemos ao espectador que entre na mente do nosso personagem (esse “espaço” onde o tempo não existe) onde em minutos, de forma não linear e fragmentada, toda uma vida é reconstituída.

Ora, o personagem se encontra no espaço (a ante-sala do presídio) e no tempo presentes, quando dirige-se ao espectador como se fizesse uma confissão e um relato dos fatos ocorridos no passado, ora situa-se no tempo e no espaço em que tais fatos ocorreram (o local do crime, a casa de Sônia, o cubículo em que morava...).

De tudo isto se constitui o “rito de passagem” empreendido por este homem que ao cometer um assassinato, como exercício de liberdade e busca de sentido na vida, entra em contacto com seu lado mais sombrio.

É através desta revisão que ele se apropria do seu passado como forma de se preparar para o futuro incerto que o aguarda.

sábado, 2 de junho de 2007

DICA DE LEITURA


MANICÔMIOS, PRISÕES E CONVENTOS
Erving Goffman
Editora Perspectiva

SINCRONICIDADE


Fazendo uma busca no Google com o título 12 SEGUNDOS DE ESCURIDÃO, encontrei uma matéria sobre o lançamento do disco do cantor uruguaio Jorge Drexler. Vejam um trecho:

"O título do novo álbum se refere ao lapso de escuridão que se dá enquanto um farol faz seu giro luminoso. A idéia era refletir o que acontece nesses momentos obscuros da nossa vida, que precedem os momentos cheios de luz."

O sentido que Jorge Drexler atribui ao título de seu album(12 SEGUNDOS DE OSCURIDAD) é muito semelhante ao que atribuimos ao nome do nosso espetáculo. É na sombra (para nos utilizarmos aqui da linguagem da psicologia junguiana) que está escondido o ouro. E nosso título surgiu quando tentávamos encontrar uma forma de enfatizar o momento em que o personagem Raskolnikov começa a redimir-se. É esse confronto com a sombra (personificada na figura da velha usurária, que Raskonikolv assassina - evidente que falamos aqui simbolicamente) que dá início a sua caminhada para a luz.

O número 12 é tambem carregado de significações:

- Na astrologia, a casa 12 (peixes) é a casa do grande trabalho espiritual;

-12 são os trabalhos de Hercules, que nada mais são que metáforas do seu desenvolvimento psicológico;

- São 12 os apostolos de Cristo....

E muitos outras conexões poderiam ser feitas com o numero 12.



Nota: Pra ver a materia sobre Jorge Drexler e o lançamento do disco 12 SEGUNDOS DE OSCURIDAD clique no link abaixo:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u64827.shtml

quinta-feira, 31 de maio de 2007

DICA DE LEITURA


PROBLEMAS DA POETICA DE DOSTOIEVSKI
MIKHAIL BAKHTINI
Editora: FORENSE UNIVERSITARIA

ESPAÇO CENOGRÁFICO

“O objeto expande-se para além dos
limites da sua aparência, pelo conhecimento que
temos de que ele significa mais do que o que
vemos exteriormente”.

“Não é apenas uma questão de se
reproduzir o que se vê, mas de tornar visível tudo
aquilo que se percebe secretamente”.


Paul Klee



Uma parede de concreto que se prolonga pelo chão com uma pequena janela ao alto, de onde se percebem os reflexos da luz exterior. Um banco de concreto.

Mais do que a representação de parte de um presídio, a cenografia nos remete ao espaço simbólico do recolhimento físico e psicológico. Têm significação semelhante o hospital, o asilo, o hospício... É o local de onde só se sai curado, morto ou renascido e carrega em si a força arquetípica do mito bíblico de Jonas na barriga da baleia e do mito da caverna de Platão.

É para este espaço que o espectador é convidado a fim de partilhar das dúvidas, dos sofrimentos e da transformação do personagem RASKONIKOLV.

FIGURINO - Jefferson Menezes


Uniforme de presidiário, confeccionado em algodão, tingido em duas etapas:

- VERMELHO (que será lavado varias vezes em solução descorante – “stone washed”);

- MARRON (rápido tingimento, para dar um aspecto de manchado).




Nossa principal preocupação, na criação do figurino, foi evitar, por questões estéticas e de conteúdo, qualquer caracterização que nos remetessem aos refugiados dos campos de concentração ou aos presidiários americanos.

A solução encontrada foi vestir o personagem com as cores da terra, geradora da vida, criando um contraste com o concreto - duro e frio - utilizado no cenário.

As medidas são inadequadas ao manequim do ator para dar a impressão de uma roupa que não lhe pertence, que foi escolhida aleatoriamente.

sábado, 26 de maio de 2007

FIODOR DOSTOIEVSKI


CRIME E CASTIGO – UMA INSPIRAÇÃO

Ao entrarmos em contato com DIARIO DE RASKOLNIKOV, um dos exercícios literários utilizados por F. Dostoievski na criação de CRIME E CASTIGO, percebemos que ali existia um excelente material que nos servia de inspiração para falar do vazio existencial e espiritual, do niilismo e da falta de sentido que caracterizam a vida do homem moderno.

O DIARIO..., um exercício inacabado, nos levou, naturalmente, ao CRIME E CASTIGO. E foi aí que nos demos conta do tamanho de nossa empreitada. Dois anos foram consumidos na tarefa de, não somente traduzir para nosso tempo os caracteres que constituem o personagem RASKOLNIKOV, mas também sinalizar a sua tomada de consciência diante do crime que cometeu, o que para nós era fundamental pois, desde o início, nossa intenção jamais foi a de fazer o retrato de um criminoso, e sim, como faz Dostoiewski nos últimos capítulos do seu romance, falar da possibilidade de redenção deste homem.

A estrutura dramaturgica, não linear e fragmentada, foi sendo construída para atender aos nossos propósitos de encenação, a nossa visão de mundo e a nossa concepção de teatro, onde o que não é dito (ou é apenas sinalizado) propõe ao espectador um “jogo”, em que sua imaginação é elemento fundamental.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

DA CONCEPÇÃO DE 12 SEGUNDOS DE ESCURIDÃO OU O MINIMALISMO COMO FILOSOFIA

A“Assegura-te de haver esgotado tudo o que
se comunica através do silêncio e da imobilidade”.


“O que está destinado ao olho, não deve
repetir o que se destina ao ouvido. Não se pode
ser, ao mesmo tempo, todo olhos e todo ouvidos”.


Robert Bresson




No mundo em que vivemos, onde o excesso de informação nos deixa cada vez mais atônitos e incapazes de eleger aquelas que nos pareçam fundamentais a uma compreensão mais profunda de nós mesmos e da realidade que nos cerca, não há outra função para a arte que não seja a de proporcionar ao homem um momento de reflexão, de volta a si mesmo, de introspecção...

O percurso por este caminho só pode se dar através do silêncio (que faz existir o som e, consequentemente, a palavra), da delicadeza, da simplicidade, da contenção e do equilíbrio.

Em nosso trabalho, os paroxismos (a cólera, o espasmo, o grito...) são, portanto, evitados, na busca de outras características que fazem de cada um de nós - e consequentemente, dos personagens - ÚNICOS e SINGULARES.

Assim sendo, cada um dos poucos elementos constitutivos de 12 SEGUNDOS DE ESCURIDÃO foram cuidadosamente escolhidos segundo a sua possibilidade de exercerem uma função simbólica no intuito de estabelecer uma comunicação total com o espectador.

No que diz respeito ao trabalho do ator, é importante frisar que esta comunicação se efetua não pelo esforço que este faça em cena para atingir o espectador, mas através do poder de atração que o mesmo exerce a partir do rico e complexo universo criado em torno de seu personagem e da técnica que consiste em provocar a curiosidade do público, fazendo-o adivinhar o todo, quando só lhe é oferecida uma parte.

DUO CIA DE TEATRO



A LUZ - A SOMBRA
O MASCULINO - O FEMININO
A VIDA - A MORTE
O YIN - O YANG