

* Texto de autoria de Bernardo Carvalho publicada no caderno ilustrada da Folha de São Paulo em 31/07/2007
"PICKPOCKET" (1959) , de Robert Bresson, é um filme livremente inspirado em "Crime e Castigo". No romance de Dostoiévski, Raskólnikov invoca a figura de Napoleão, o assassino de milhares de pessoas absolvido pela história, como exemplo para uma teoria do homem extraordinário, capaz de criar a sua própria lei e arcar com as responsabilidades dos seus atos. Assim pretende justificar o assassinato de uma velha usurária, que ele vai cometer com requintes de violência. No filme de Bresson, agora lançado em DVD, um rapaz desempregado se torna batedor de carteiras, "uma aventura para a qual não fora talhado", e se justifica com uma teoria análoga à de Raskólnikov: o crime o destaca da massa e o dignifica. Não se submeter à lei criada pelos outros é a afirmação do seu gênio.
O batedor de carteiras entra em ação pela primeira vez entre os espectadores das corridas de cavalos. Bresson filma a cena da forma mais antinaturalista -de resto, como todo o filme.
Os atores-figurantes assistem à corrida de frente para a câmera. O batedor de carteiras está estrategicamente disposto atrás de sua vítima, movido por um impulso que, como já assinalaram outros críticos, tem muito de erótico. A cena ilustra a teoria do personagem: todos estão distraídos, como se fossem autômatos, suas expressões são banais à força de tanta semelhança, estão hipnotizados por um interesse comum. Só ele, à beira de cometer um crime, tem a atenção desviada. Seu olhar é o único vivo e misterioso na sua individualidade.
No final do filme, o protagonista volta à cena do crime inicial, às corridas de cavalos, onde começou sua carreira.
Mas, desta vez, apesar de toda a experiência acumulada, será pego em flagrante. Quando a mulher que ele ama o visita na prisão, o batedor de carteiras diz que foi preso porque se distraiu. Para ele, é uma idéia insuportável. Significa que já não se distingue da massa distraída, que foi vítima da distração, como todos os outros.
Bresson era um cineasta marcado pela religião, pelas questões do pecado e da culpa. Adaptou dois outros textos de Dostoiévski: "Uma Mulher Dócil" (1969) e "Quatro Noites de um Sonhador" (1972, baseado em "Noites Brancas"). Na leitura idiossincrática que fazia da obra de Dostoiévski, Vladimir Nabokov não media as palavras quando era para pichar o compatriota. Em relação a "Crime e Castigo", o que mais o exasperava era a retórica sentimentalista levada ao cúmulo, segundo ele, na cena redentora em que o assassino e a prostituta lêem o Novo Testamento.
Em "Pickpocket" também há expiação da culpa e redenção pelo amor. Mas nada pode ser taxado de sentimentalista.
Todo o cinema de Bresson está fundado numa lição e num paradoxo teatral: o falso, quando homogêneo, resulta verdadeiro. Para que o real se manifeste na tela, é preciso que nem a cena nem os atores tentem disfarçar o que são.
Para Bresson, o real brota do artifício da representação assumido como tal e não das convenções do naturalismo. Por isso, preferia não trabalhar com atores, que são fingidores profissionais. Preferia a inexperiência dos iniciantes, os quais chamava de modelos.
O mundo em "Pickpocket" é representado como um cenário onde os homens evoluem numa coreografia milimetricamente ensaiada, que chega ao ápice quando, numa estação de trens, vários ladrões agem em conjunto. Os gestos são rigorosamente estudados e encenados, à maneira da própria "arte" do batedor de carteiras. Tudo é filmado em detalhe, em primeiro plano: mãos, carteiras, lapelas e bolsas, como numa dança de objetos parciais e autônomos. Um mundo de movimentos lentos e de figurantes vagando pelas ruas, como zumbis (que, às vezes, lembram os personagens dos quadros de Balthus) ao som amplificado dos seus passos nas calçadas, como se vivessem em estúdio.
Assim como Dostoiévski, Bresson inaugura um mundo que não existia antes dele. E esse mundo é tão mais real por ser efeito de uma concepção autoral inimitável e sem precedentes. Antes de começar propriamente a ação do filme, o batedor de carteiras escreve em seu diário: "Sei que de
costume os que fizeram tais coisas se calam e os que as contam não as cometeram. E, no entanto, eu as cometi". É a deixa para o espectador entender que nunca viu o que está para ver. E que daí em diante tudo dependerá desse paradoxo tão caro a Bresson, segundo o qual a verdade nasce da invenção. Num desdobramento e numa inversão muito peculiar da teoria de Raskólnikov, a própria arte rouba o lugar do crime.

Um comentário:
Cofesso que já estou gostando de tudo!!..como você escreve bem, escreve com paixão,posso dizer até que vejo a "alma afoita" em ação,buscando tirar o melhor de cada cena, cada gesto.
Estou torcendo muito pelo seu espetáculo!...e confesso que estou até querendo ler Crime e Castigo para mergulhar melhor nesse universo tão bem descrito por vc.
beijos!
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